Tudo que você precisa saber sobre: estrangeirismo

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O estrangeirismo, quando empregado com bom senso, não coloca em risco a soberania da língua portuguesa

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Existem alguns pontos controversos quando o assunto é a língua. Entre os diversos pontos que geram discussões acaloradas entre os linguistas está o estrangeirismo. Verdade é que os empréstimos linguísticos nem sempre são vistos com bons olhos, muitos estudiosos acreditam que eles podem ameaçar a soberania da língua portuguesa, bem como empobrecer e dificultar a comunicação, função primordial da linguagem.

Bom, diante de tantas polêmicas, o sítio de Português preparou uma listinha sobre tudo que você precisa saber sobre estrangeirismo. O que é? Para que serve? Ele realmente coloca em risco nossa língua portuguesa? Boa leitura, bons estudos!

Tudo que você precisa saber sobre estrangeirismo

1. O que é estrangeirismo?

O estrangeirismo é o emprego de palavras, expressões e construções alheias ao idioma tomadas por empréstimos de outra língua. Vocábulos oriundos de outras línguas são incorporados por meio de um processo natural de assimilação de cultura ou ainda por conta da proximidade geográfica com regiões cujos idiomas oficiais sejam outros. Sendo assim, podemos dizer que o estrangeirismo é um fenômeno linguístico orgânico, isto é, ele acontece de maneira espontânea e, quando menos percebemos, estamos utilizando empréstimos linguísticos para nos referir a objetos e ideias.

2. O estrangeirismo não coloca em risco a soberania da língua portuguesa:

Alguns estudiosos, sobretudo os tradicionalistas, veem o estrangeirismo como uma ameaça à língua portuguesa, um patrimônio cultural imaterial do Brasil. Contudo, é preciso cautela antes de afirmarmos que os empréstimos linguísticos causam prejuízos ao idioma oficial de um país. É absurdo o mito que corre por aí com ares de verdade de que, de repente, todos substituiremos o português pelo inglês, idioma que mais vocábulos empresta ao português na atualidade.

O estrangeirismo é um fenômeno social e, para que você entenda melhor o que isso significa, podemos comparar a língua à vestimenta: assim como as roupas, os comportamentos linguísticos da sociedade seguem a moda da época. Se até algum tempo atrás era comum dizer que uma garota era um “broto” e que um garoto era um “pão”, hoje não mais, pois “broto” e “pão” tornaram-se expressões obsoletas, como é obsoleta a expressão calças boca de sino, atualmente chamadas de calças flare, já que estamos falando sobre empréstimos linguísticos. Essa comparação nos diz que interações sociais, econômicas, culturais e políticas refletem de maneira considerável os comportamentos linguísticos, portanto, conclui-se que, diante da tradição, isto é, da língua portuguesa, o estrangeirismo é apenas uma “nuvem passageira”.

3. Se os estrangeirismos podem ser comparados aos modismos, por que existem empréstimos que se consagraram na língua portuguesa?

Muitos empréstimos linguísticos incorporaram-se de maneira indelével ao nosso vocabulário, isso é inquestionável. Contudo, isso não quer dizer que estamos deslegitimando o argumento defendido no tópico 2, mas apenas relativizando a questão, afinal de contas, quando o assunto é a língua, generalizações não são permitidas. Ao longo da história tomamos emprestados vocábulos de muitos idiomas. Se hoje em dia o inglês é quem mais nos empresta palavras, no início do século XX, por exemplo, o francês era quem dava as cartas por aqui. Algumas palavras desse idioma o tempo levou de nosso vocabulário, enquanto outras foram tão bem recebidas e assimiladas que fica difícil acreditar que não são nossas. Quer alguns exemplos? Veja a listinha abaixo:

abajur – abat-jour

balé – ballet

batom – bâton

Sutiã soutien

Toalete – toilette

Você deve ter percebido que as palavras que hoje usamos não preservaram suas formas originais, e isso se deve ao processo de aportuguesamento vocabular. Outras, no entanto, conservaram a grafia original, deixando claro que são “intrusas” em nosso léxico. Veja alguns exemplos:

Backup

Hardware

Software

Pen drive

Check-in

Design

A maioria dos termos acima pertence a um mesmo campo semântico, isto é, faz referência ao universo da informática e ainda não possui correspondentes à altura na língua portuguesa. Por ainda não termos conseguido substituí-los sem que houvesse perda de significação e expressividade, preferimos, ainda que inconscientemente, preservar a “matriz”. Se eles serão consagrados em sua forma original, só o tempo e os falantes, responsáveis por definir o que fica e o que deve ser descartado, dirão.

4. Os estrangeirismos podem ser abolidos da língua portuguesa?

Não, exceto por algum tipo severo de coerção. Ainda que seja criada uma lei que proíba o cidadão de usar estrangeirismos, sempre haverá um ou outro “meliante” a desobedecer à regra. Abolir os empréstimos linguísticos por decreto é tão produtivo quanto proibir o falante de falar. Não é possível delimitar fronteiras para a comunicação, a língua é uma ferramenta democrática e pertence aos falantes, somos nós quem decidimos os rumos da linguagem.

Não pense você, no entanto, que ninguém nunca tentou barrar o avanço dos estrangeirismos na língua portuguesa. Em 1999, o então deputado Aldo Rebelo criou um Projeto de Lei que propunha “a promoção, proteção, defesa e o uso da língua portuguesa”, cujo objetivo era abolir os empréstimos linguísticos e punir quem insistisse em conspurcar o português, essa última flor do Lácio, inculta e bela... Bom, o final dessa história quase cômica vocês já devem imaginar: o projeto não deu em nada graças ao bom senso de vários linguistas que, por meio de dois ou três argumentos fortes, conseguiram desmontar o absurdo proposto pelo deputado, que se achou no direito de legislar sobre o que não conhecia.

5. Estrangeirismos e bom senso devem caminhar lado a lado:

Fôssemos dotados de bom senso o tempo todo, a discussão sobre os estrangeirismos não ganharia tamanha relevância. A implicância contra os empréstimos deriva do exagero: se existe uma palavra na língua portuguesa que consegue expressar com exatidão o significado de um empréstimo vocabular, por que não adotá-la? A resposta para essa pergunta passa por aspectos que fogem da mera discussão linguística e invariavelmente nos levam a pensar sobre a influência nem sempre positiva de uma cultura sobre a outra. Pensar que o inglês, o francês ou seja lá qual língua for sejam mais importantes do que a nossa apenas reafirma poderes simbólicos que levam o falante a acreditar que é chique usar nove estrangeirismos a cada dez palavras ditas.

Assim, viva os estrangeirismos, eles estão aí para contribuir para nossas atividades discursivas, e não para serem um obstáculo para a comunicação, razão maior da linguagem. Todavia, como em quase tudo na vida, menos é mais, portanto, na dúvida e na possibilidade de um vocábulo tupiniquim, opte sempre pelo bom senso, ou seja, prefira o bom e velho português e nada de for sale em vez de liquidação, certo?

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