A última crônica de Carlos Drummond de Andrade

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Drummond não escreveu apenas poesia: foi exímio cronista, tendo contribuído com mais de 2300 crônicas para o Jornal do Brasil *

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Carlos Drummond de Andrade recebeu o grandioso título de maior poeta brasileiro do século XX. A epígrafe é incontestável, basta passear por sua obra para compreender porque crítica e público reverenciam o talento de uma de nossas maiores expressões literárias. Embora seja mais conhecido como poeta, Drummond também foi exímio contista e cronista, e foi esse último gênero, a crônica, que ajudou a consagrá-lo como nome indispensável para a história da literatura brasileira.

Durante quinze anos, o escritor publicou três vezes na semana suas crônicas no Jornal do Brasil, totalizando a extraordinária marca de 2300 textos – aproximadamente. Diante desse número, você pode ter uma ideia da importância da crônica na trajetória literária de Carlos Drummond de Andrade, escritor que tão bem se apropriou desse gênero. Drummond fez da crônica um objeto literário, e não apenas jornalístico, comprovando o dialogismo entre literatura e jornalismo.

Confesso que, se é que tive alguma vocação na vida, que não pude cumprir, foi ser jornalista. Gostaria de ser jornalista, apesar de ser uma profissão ingrata.”

(Carlos Drummond de Andrade em entrevista concedida a O Estado de S. Paulo, 28 de abril de 1985)

Quando se transferiu da capital mineira para o Rio de Janeiro em 1934 (Drummond foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação), o escritor deu início não apenas à carreira de funcionário público, mas também ao ofício de cronista, colaborando com diferentes jornais cariocas. A duradoura relação com o Jornal do Brasil, periódico para o qual contribuiu durante quinze anos, teve início em 1969: durante essa fase, Drummond teve a oportunidade de abordar variados temas em suas crônicas, entre eles o futebol, a vida cotidiana, a música, a memória individual e a memória coletiva, valendo-se sempre da leveza e do lirismo tão comuns à poesia.

Eu fui mais um cronista, um amigo e companheiro da hora do café da manhã que um escritor. Um homem que registrava o cotidiano e o comentava com o possível bom-humor para não aumentar a tristeza e a inquietação das pessoas. Considerava o jornal um repositório de notícias tremendas. Então, o meu cantinho do jornal era aquele cantinho em que procurava distrair as pessoas dos males, dos aborrecimentos, das angústias da vida cotidiana.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Para o leitor, Drummond entregava um retrato comentado de sua época, pequenas obras-primas que, embora presas aos acontecimentos da época em que foram escritas (afinal de contas, o tempo é a matéria de uma crônica), jamais perderam seu imenso valor literário. A parceria com o Jornal do Brasil, que contribuiu de maneira inquestionável para a popularidade do escritor, terminou no ano de 1984 quando, às vésperas de completar 82 anos de idade, Drummond despediu-se de seus “companheiros de café da manhã”.

O sítio de Português apresenta para você, caro leitor, aquela que foi a última crônica de Carlos Drummond de Andrade, crônica batizada com o um sugestivo título: Ciao. Esperamos que você faça uma boa leitura e que esta seja apenas a primeira de muitas crônicas de um dos maiores gênios da literatura brasileira que você terá o prazer de conhecer.

No livro Boca de luar estão reunidas algumas crônicas publicadas pelo Jornal do Brasil entre os anos de 1969 a 1984
No livro Boca de luar estão reunidas algumas crônicas publicadas pelo Jornal do Brasil entre os anos de 1969 a 1984

Ciao

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

- Sobre o que pretende escrever?

- Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

Carlos Drummond de Andrade

(Jornal do Brasil, 29/09/1984)

* A imagem que ilustra o artigo é capa do periódico 'Cadernos de Literatura Brasileira', do Instituto Moreira Salles.

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