Arcadismo

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Tomás Antônio Gonzaga – Um dos representantes árcades



Sonetos
IV

Sou pastor; não te nego; os meus montados
São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente
A doce companhia dos meus gados;
Ali me ouvem os troncos namorados,
Em que se transformou a antiga gente;
Qualquer deles o seu estrago sente;
Como eu sinto também os meus cuidados.
Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
Firmes vos contemplastes, e seguros
Nos braços de uma bela companhia;
Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
Que eu alegre algum tempo assim me via;
E hoje os tratos de Amor choro perjuros.
[...]
 Cláudio Manuel da Costa


Diante dos fragmentos poéticos em evidência, percebemos que, esteticamente, trata-se de um soneto, formado por dois quartetos e dois tercetos; e que há uma alternância no que se refere às rimas perfeitas.

Constatamos uma característica que nos leva a crer que essa se deve a uma leva de fatores ligados ao contexto social ora vigente: a ideologia dos representantes artísticos que compuseram a estética em estudo, bem como as particularidades concebidas por outras estéticas antes proferidas, funcionando como uma espécie de repulsa aos moldes preconizados por estas.

Não raro ocorreu com o Arcadismo, pois esse movimento se deve, entre outros fatores, à Revolução Industrial, a qual fez desencadear uma nova organização na forma de trabalho, ou seja, o avanço tecnológico passa a ser colocado a serviço da produção de bens. Consequentemente, a urbanização provoca o êxodo rural e determina a ascensão da burguesia e danos à aristocracia e também ao absolutismo monárquico.

Geralmente, tais transformações ocorridas são acompanhadas do surgimento de novas correntes filosóficas, e nessas, por excelência, pelo Iluminismo, que propunha a razão como único meio válido de obtenção de conhecimento.
Essa corrente era inspirada nas ideias de René Descartes e Espinosa, os quais não acreditavam em nenhum tipo de intervenção divina na ordem da natureza, pois tudo seria explicado unicamente pela razão e pela ciência.

Mediante essa tendência, os filósofos que mais se destacaram foram Voltaire e Rousseau. Voltaire criticava severamente as práticas da Igreja Católica e defendia o despotismo esclarecido – forma de governo presidida por um monarca e que tinha por objetivo promover o progresso e garantir a liberdade de pensamento individual.

Rousseau, por sua vez, defendia a ideia da simplicidade. Baseada na teoria do “Bom Selvagem”, ele retratava que o ser humano nasce livre de qualquer tipo de vício, entretanto, se torna corrompido diante do meio social que o cerca.

Esses postulados se tornam relevantes para entendermos que o Arcadismo foi um movimento que visava a uma sociedade mais justa, mais igualitária, razão pela qual também é conhecido como “Século das Luzes”.

O período em referência é também conhecido como “Neoclassicismo”, pois ele retoma os valores clássicos e, por assim dizer, pauta-se por determinadas expressões latinas, as quais tomaremos conhecimentos adiante:

Fugere urbem (fugir da cidade) – Como vimos anteriormente, a urbanização, aliada às ideias do filósofo Rousseau, muito influenciou para o despertar do bucolismo, isto é, a vida campesina voltada para as belezas naturais. Assim sendo, o artista adota a personalidade de um pastor, levando uma vida regada aos valores do campo.

A título de análise, retomemos ao soneto anterior no intuito de constatarmos tal evidência por meio dos versos: Sou pastor; não te nego; os meus montados
São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente
A doce companhia dos meus gados;

Inutilia truncat (cortar o inútil) – Funcionando como uma espécie de repulsa aos exageros da estética barroca, os árcades optaram pela clareza e pela ordem direta das palavras.

Carpe diem (aproveitar o dia) – Assim como os artistas barrocos, os árcades também tinham consciência da instabilidade do mundo terreno. Entretanto, enquanto que os primeiros expressavam essa insatisfação por meio de uma linguagem carregada de hipérboles, os outros consideravam que o melhor era aproveitar os momentos de uma forma intensa, diante da fugacidade dessa vivência.

Locus amoenus (lugar ameno) – Para os árcades, a natureza era concebida como um lugar ameno, fonte de equilíbrio e paz interior. Como bem detectamos nos seguintes excertos poéticos: Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
Firmes vos contemplastes, e seguros
Nos braços de uma bela companhia;

Aurea mediocritas – (Considerada como “equilíbrio” com vistas a promover o bem-estar) – Tal posicionamento era reforçado na ideia de que a virtude está no meio, ou seja, nem a miséria e nem a riqueza comporiam a vida do ser humano. Essa deveria ser permeada pelo equilíbrio, com vistas a lhe garantir uma sobrevivência baseada na simplicidade.

Diante do exposto, temos subsídios suficientes para interpretarmos o soneto em pauta, reconhecendo todas as particularidades até então analisadas e, de maneira ímpar, atribuídas por este importante artista que foi Cláudio Manuel da Costa, assim como tantos outros.

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