Dez poemas da Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal

Home / Literatura / Literatura Brasileira / Dez poemas da Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal

Paulo Leminski, Waly Salomão, Ana Cristina Cesar e Torquato Neto estão entre o principais nomes da Poesia Marginal *

Curtidas 0

0

Compartilhe

Chacal, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Torquato Neto, Waly Salomão... Escritores que na década de 1970 mudaram para sempre o jeito de fazer poesia. Longe das grandes editoras, afinal de contas, representavam a contracultura da literatura nacional, os poetas marginais recorriam ao mimeógrafo e às fotocopiadoras para reproduzirem seus textos, distribuindo-os ou os vendendo a baixo custo em eventos relacionados com a cultura marginal.

Entenda por cultura marginal todas as manifestações artísticas que não se encaixavam nos cânones – os moldes consagrados para fazer arte – naqueles idos de 1970. A exemplo dos primeiros modernistas, os poetas marginais romperam com a tradição vigente, provando que a poesia não é uma musa intocável, distante da realidade dos meros mortais: a poesia está presente no cotidiano das grandes e pequenas cidades, nas periferias, presente na vida dos homens e das mulheres comuns. Do movimento literário, ficou a inventividade artística e a vitalidade criativa, suas características predominantes, características que você vai conhecer agora com a seleção de poemas da Geração Mimeógrafo feita pelo sítio de Português. Boa leitura!

Dez poemas da Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal

Chacal, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, é um dos maiores expoentes da Poesia Marginal
Chacal, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, é um dos maiores expoentes da Poesia Marginal

Let's play that

quando eu nasci
um anjo louco muito louco

veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão

com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that

Torquato Neto

NOSSO AMOR RIDÍCULO SE ENQUADRA
NA MOLDURA DOS SÉCULOS

NOSSO AMOR RIDÍCULO SE ENQUADRA NA MOLDURA DOS SÉCULOS
SUGO ESPIRAIS DAS NUVENS DE CIGARRO QUE FUMO
SOFRO BAFORADAS-CARAMUJO POR ENTRE VOLUTAS DO UNIVERSO
EU, PEQUENINO GRÃO DE AREIA-POETA, PLASMO RIMA ALITERAÇÃO                                                                            METÁFORA OXIMORO VERSO
PASTO PALAVRA: QUINQUILHARIA NINHARIA PALÁCIO DO NENHURES
                                                                                                            Ó CASTELO
DE VENTO
                           PASTEL DE BRISA
                                                                              MONTE DE GANGA BRUTA
ESTUÁRIO DE BUGINGANGA                            NONADA
EM CONFRONTO COM MANADAS MIRÍADES D´ESTRELAS ESPOUCADAS
SOBRE OS SETE DIFERENTES MARES QUE SETE ESPELHOS SÃO PARA
                                                                                                            ALGUM MAR
ABSOLUTO
(ROMA E BAALBECK E BAGDAD E BABILÔNIA E BABEL SIDERAL)
E É NOSSO AMOR TÃO DIMINUTO
                       LAMPEJO DE SEGUNDO
                                                                      RELÂMPAGO DISSOLUTO
FILETE DUM RIO MINÚSCULO
MICROSCÓPIO LEITO
AMOR .....................................................NOSSO SÉCULO:
BURACO NEGRO SORVEDOURO DE VULTO AROMA LUZ
BAGAÇOS DE ROLHA BOLHA BORRA PORRA PÓ
BEBO VINHO PRECIOSO COM MOSQUITOS DENTRO
                                                                  MURIÇOCA MARUIM POTÓ

Waly Salomão

Paulo Leminski. Curitiba, 24 de agosto de 1944 - Curitiba, 07 de junho de 1989
Paulo Leminski. Curitiba, 24 de agosto de 1944 - Curitiba, 07 de junho de 1989

Assaltaram a gramática

Assaltaram a gramática
Assassinaram a lógica

Meteram poesia
na bagunça do dia a dia
Sequestraram a fonética
Violentaram a métrica
Meteram poesia
onde devia e não devia
Lá vem o poeta
com sua coroa de louro,
Agrião, pimentão, boldo
O poeta é a pimenta
do planeta!
(Malagueta!)

Waly Salomão

Na porta lá de casa

 Na porta lá de casa
tem dizendo lar romi lar
uma bandeira de papel
na porta lá de casa
as crianças passam
e se atiram no chão
e se olham por dentro
das bocas das palavras
na falta de qualquer espelho
na porta lá de casa
passa o amor o calor
de cada um que passa
na porta lá de casa.

Chacal

Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro, 02 de junho de 1952 - Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983
Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro, 02 de junho de 1952 - Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983

Acreditei que se amasse de novo

esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

Ana Cristina Cesar

Representante da Poesia Marginal, Paulo Leminski foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor
Representante da Poesia Marginal, Paulo Leminski foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

*A imagem que ilustra o artigo foi feita a partir da capa dos seguintes livros:

O bandido que sabia latim. Biografia de Paulo Leminski por Toninho Vaz. Editora Record;
Poesia total, Waly Salomão. Editora Companhia das Letras;

Poética, Ana Cristina Cesar. Editora Companhia das Letras;
A biografia de Torquato Neto por Toninho Vaz. Editora Nossa Cultura.

Artigos Relacionados