Florbela Espanca

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Florbela Espanca nasceu em Portugal no dia 08 de dezembro de 1894. Faleceu na mesma data, em Matosinhos, 36 anos depois*

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Considerada uma das maiores poetas da literatura portuguesa, Flor Bela Lobo nasceu em Portugal, em Vila Viçosa, Alentejo, no dia oito de dezembro de 1894. Filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, e embora registrada como filha de pai desconhecido, foi educada por João Maria e sua madrasta, Mariana Espanca, de quem adotou o sobrenome pelo qual ficou eternizada no universo literário.

Contemporânea de Fernando Pessoa, considerado como o mais universal poeta português, Florbela Espanca ficou conhecida por sua poesia permeada por feminilidade e erotismo, temas que renderam à poeta a alcunha de uma das primeiras feministas de Portugal. A solidão, o desencanto, o sofrimento e a busca incessante pela felicidade foram temas recorrentes na obra de Florbela. Por sua linguagem e concepção de Literatura peculiares, não se associou a nenhum movimento literário, embora existam traços do neorromantismo português em alguns de seus poemas. O gosto pelo soneto também assemelhou sua linguagem à de Antero de Quental e também à de Luís Vaz de Camões. A poeta, que é considerada a grande figura feminina das primeiras décadas da Literatura portuguesa do século XX, faleceu em Matosinhos, no dia oito de dezembro de 1830, aos 36 anos de idade.

Para que você conheça mais sobre a arte de uma das maiores vozes da Literatura portuguesa, o sítio de Português apresenta para você cinco poemas de Florbela Espanca carregados de emoção, amor e lirismo. Boa leitura!

Os poemas de Florbela foram inspirados em sua agitada vida pessoal. A rejeição paterna provocou na poeta um enorme sofrimento íntimo
Os poemas de Florbela foram inspirados em sua agitada vida pessoal. A rejeição paterna provocou na poeta um enorme sofrimento íntimo

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer a razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!


"Tudo no mundo é frágil, tudo passa…"

Quando me dizem isto, toda a graça 

Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, digo de rastros:

"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, 

Que tu és como Deus : Princípio e Fim!…"

Eu ...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

A maior Tortura

A um grande poeta de Portugal

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado, 
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor ...

* A imagem que ilustra o artigo é capa do livro “Florbela Espanca – Uma estética da teatralidade”, da escritora Renata Soares Junqueira, Editora Unesp.

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