João Cabral de Melo Neto e sua engenhosidade artística

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João Cabral de Melo Neto – a representação poética da geração de 45


Antes de nos inteirarmos acerca do perfil artístico deste inigualável representante da arte literária, conheceremos um pouco mais sobre a trajetória que norteou sua carreira. Descendente de donos de engenho, nasceu em Recife, em 1920. Viveu toda sua infância no interior de Pernambuco convivendo em meio aos canaviais cultivados pela família.

Em 1942, se mudou para o Rio de Janeiro, onde prestou concurso para atuar como funcionário público, época em que conheceu renomadas figuras artísticas, tais como, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, dentre outros.
Em 1946 ingressou na carreira diplomática, passando, a partir daí, a viver em vários lugares: Londres, Sevilha, Genebra, Marselha, entre outras, aposentando-se em 1960.

Sua primeira estreia como escritor deu-se em 1942, com A pedra do sono, cujas características peculiares já denotavam uma incansável vigilância sobre a concretude das coisas e a simetria da forma. Posteriormente, outras obras ocuparam lugar de destaque, entre elas: Psicologia da composição (1947); O cão sem plumas (1950); O rio (1954); Duas águas (1956); Quaderna (1960); Morte e vida Severina (1966); A educação pela pedra (1966); Museu de tudo (1975); A escola das facas (1979); Auto do frade (1982); Agrestes (1985); Crime na Calle Relator (1987); Sevilha andando (1991).

Há que se ressaltar que em toda essa trajetória artística, este representante deixou uma característica intrínseca à sua personalidade – a contenção e a objetividade. Abnegada de todo lirismo proferido pelos românticos, sua poesia tem como fonte inspiradora a própria realidade revelada pelo cotidiano. Nela, o poeta não é mais um sonhador, e sim um atento e crítico observador do real.

Somados a estes pressupostos, há ainda um aspecto de notável relevância – o fato de a poesia de João Cabral se caracterizar por duas vertentes: uma primeira linha, cuja tendência se volta para a metalinguagem, abrangendo uma temática de investigação do próprio “fazer poético, e outra, chamada de participante, tem o Nordeste como sua temática principal. Entretanto, divergindo-se do regionalismo crítico e fazendo dos aspectos elementares (tais como: a seca, a miséria e a fome), seu elemento poético capturado pela essência imaginativa do artista.

De modo a concretizarmos tais pressupostos teóricos, analisemos uma de suas criações:

Tecendo a Manhã
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto

Notamos que a presente obra nos revela traços característicos da primeira vertente, anteriormente mencionada, na qual o poeta se utiliza do fazer poético para explicá-lo, atribuindo à linguagem toda a magia e encantamento, ora materializada por meio do “arquitetar” do discurso.

Atemo-nos a mais uma de sua vastíssima obra:

Morte e vida Severina – Cena I

Monólogo no qual Severino se apresenta e se diz igual a tantos outros Severinos:
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

[...]

Cena II – Momento em que Severino encontra dois homens carregando um defunto, morto com uma bala durante a disputa pela posse de um mísero pedaço de chão:

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
— A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
— E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
— Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
[...]


Mediante tais excertos poéticos, identificamos a segunda vertente norteadora da poesia cabralina, visto que o poeta ameniza as mazelas conferidas por um fato social extremamente agravante por meio de uma linguagem tênue, procurando, magnificamente, abrandá-la.

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