Literatura: uma arte plurissignificativa

Home / Literatura / Arte literária / Literatura: uma arte plurissignificativa

O caráter subjetivo da Literatura confere a ela  a qualidade de uma arte plurissignificativa

Curtidas 0

Compartilhe

Talvez afirmarmos sobre o fato de que a literatura se concebe como uma arte plurissignificativa torna-se vago, impreciso. Todavia, ao nos depararmos com o poema que se apresenta expresso abaixo, pode ser que adquiramos uma visão mais ampla acerca do fato. Ei-lo, portanto:

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Carlos Drummond de Andrade

Como expresso no próprio poema, “Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra[...]”,se as palavras não dispusessem dessa face neutra, de que fala Carlos Drummond, talvez a Literatura não pudesse ser considerada uma arte, quem sabe... Contudo, se você ainda não conseguiu identificar essas mil faces (ainda que pareça hiperbólico demais para você) é porque  ainda não descobriu o verdadeiro sentido da arte, da arte da palavra propriamente dita.

Indo mais além, sobretudo quando nos sentimos elevados diante dessa magnitude que subsidia nossa discussão, deparamo-nos com outros versos, ora demarcados por:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Os poemas se encontram “em estado de dicionário”, como bem nos aponta esse grande mestre, mas espere: eles assim permanecem porque esperam ser escritos, haja vista que quando transportados ao papel, adquirem, assumem novas nuances.  Assim, para reforçar ainda mais essa ideia que aqui se faz presente, acesse o texto “As entrelinhas do texto literário”.

Alguns aspectos que nele se sobressaem dizem respeito ao fato de que nem tudo num texto dessa natureza se encontra explicitamente identificável – e é justamente nessa questão que reside o ponto central das abordagens aqui demarcadas, ou seja, o que se encontra por trás do visível é o que confere esse caráter plurissignificativo, essa amplitude de interpretações. Eis que daí fazemos menção ao “estado de dicionário”, ou seja, estado esse referente ao sentido convencional, denotativo das palavras. Literatura? Temos certeza de que não é, pois a arte literária não deve ser assim tão breve, concisa, assim como é o sentido das palavras retratadas por meio dos verbetes enciclopédicos. Ao contrário, ela deve se conceber como efêmera, como objeto subjetivo, como produto passível de múltiplas interpretações, de visões multifacetadas, haja vista que, quando do contrário, as entrelinhas, o descortinar das palavras se tornam impalpáveis, invisíveis aos olhos.

Voltar ao topo