O movimento simbolista

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Augusto dos Anjos – Um dos representantes simbolistas


De modo a compreendermos de maneira precisa como se sucederam os movimentos que perpassaram a história da arte literária, torna-se essencial enfatizarmos sobre o fato de que todos eles se materializaram como sendo fruto de entrecruzamento de correntes ideológicas ligadas a um contexto histórico-cultural, em que as manifestações artísticas se materializaram de forma a complementarem ou até mesmo contradizerem-se umas às outras.

Enfatizando aqui mais um desses movimentos, ora representado pelo Simbolismo, podemos dizer que ele se manifestou como forma de repúdio às ideias preconizadas pelo instinto racional que subsidiaram tanto a estética realista quanto a parnasiana.

Referindo-nos a esta racionalidade é importante sabermos que ela se encontrava condicionada ao avanço tecnológico oriundo da Revolução Industrial, em que o mundo se deparara com a invenção da luz elétrica, do automóvel, entre tantas outras inovações. Em meio a todo esse contexto surgiram também as doutrinas científicas e filosóficas, tais como o Determinismo, Evolucionismo, Positivismo e o Marxismo.

Em terras brasileiras, a situação não era diferente, haja vista que a época marcava o fim do tráfico negreiro promulgado pela Abolição da Escravatura e, consequentemente, a mão de obra gerada pela atividade açucareira, conhecia seu declínio. O eixo econômico se voltava para uma outra atividade, a cafeeira, difundida nas regiões do Sudeste brasileiro. Tal ocasião marcou a migração significativa de europeus com o propósito de atender a tal demanda.

A consequência de todos esses acontecimentos foi tão somente a evolução do capitalismo burguês, o que muito contribuiu para a estabilidade financeira das camadas sociais. Diante disso, o artista se viu insatisfeito ao extremo e, como sabemos, foi na arte que ele encontrou uma forma de desbravar todo esse sentimento.

Surge assim um indivíduo voltado para si mesmo, egocêntrico, por sinal. Parece que temos a impressão de que essa característica nos faz lembrar de uma estética literária antes vivida, não é mesmo? Pois é verdade, intuímos corretamente. O movimento simbolista revela marcas preconizadas pelo Romantismo no que se refere à atitude egocêntrica como forma de escapismo perante as intempéries cotidianas.

Pontuando apenas uma diferença contundente – a de que enquanto o artista romântico revelava seu subjetivismo apenas nas camadas mais superficiais do verdadeiro “eu” –, o representante simbolista procurava levar essa interiorização às últimas consequências. Apoiado nos pressupostos teóricos de Sigmund Freud, ele, numa espécie de transcendentalismo, extravasa todos os seus limites, chegando a atingir o próprio inconsciente.

Procurando acentuar as peculiaridades que demarcaram a estética simbolista no que concerne aos aspectos temáticos e formais, vejamos:

* Subjetivismo aprofundado – Em repúdio ao cientificismo anteriormente cultuado, o Simbolismo prioriza a objetividade representada pela arte. Para tanto, assim como anteriormente mencionado, privilegia o seu mundo interior, buscando no seu íntimo as razões para o seu próprio “eu”.

* Conhecimento ilógico e intuitivo – Representado pelo desejo de explorar tudo aquilo que ultrapassa as camadas superficiais da subjetividade, o artista faz com que a intuição seja posta em primeiro plano, por achar que a essência da poesia reside em um outro lado de nossa existência – o da obscuridade.

* Concepção mística do mundo – Pelo fato de recusarem a razão, os simbolistas se voltam para a fé numa espécie de misticismo difuso, embora enraizado na crença cristã. Idealizam um mundo que se diverge do real, atingível somente por meio da beleza pura. Como fator resultante de tal concepção, temos uma poesia envolta por um clima de fluidez e mistério.

* Linguagem evocativa – O movimento simbolista, mostrando-se contrário à razão, opta por evocar, sugerir, as profundezas inconscientes. A linguagem se materializa por meio da sugestão dos conteúdos em detrimento à descrição propriamente dita destes e, de modo a satisfazer tal pretensão, estabelece relações com a música e a pintura por intermédio da alusão às cores e sons. Constata-se também o emprego de recursos linguísticos representados pela metáfora e a sinestesia, na qual há uma fusão de elementos relacionados aos órgãos dos sentidos (paladar, olfato, visão, audição e tato).

* Linguagem musical – A musicalidade revela uma característica marcante nas produções artísticas. Isso porque a palavra, destituída de uma logicidade, adquire força expressiva quando representada pela sonoridade. Desta feita, notamos outro recurso linguístico, caracterizado pelo uso de aliterações (figura que consiste na repetição de sons consonantais), como também a atribuição que se confere às vogais, manifestada pelo efeito sonoro entre o “i” e “u”(por retratarem um som fechado) como forma de representar um estado de alma por vezes melancólico.

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