Oswald de Andrade - o modernista revolucionário

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Oswald de Andrade – crítico e irreverente

Ao afirmarmos que o artista em questão é considerado um revolucionário, tal posicionamento revela que ele, de maneira singular, esteve à frente de sua produção no sentido de materializar todos os propósitos firmados pela “nova concepção” de arte, sobretudo protagonizada pela Semana de Arte Moderna.

Para que possamos compreender toda a ideologia que compõe o perfil deste hábil autor, enfatizaremos acerca dos pressupostos inerentes ao referido acontecimento histórico, ocorrido em fevereiro de 1922, no qual Oswald de Andrade e tantos outros, brilhantemente, revelaram seus talentos.

Atendo-nos ao dinamismo que nutre todos os movimentos literários, os quais ora se completam, ora se refutam, uma das características propostas pela Semana foi a ruptura com a gramática normativa. Os que assim se dispuseram, tinham por finalidade romper com o academicismo literário, atribuindo-se aos moldes parnasianos, envoltos por uma completa erudição. Assim, almejavam fazer uma arte voltada para a liberdade de expressão, na qual o erudito cederia lugar para o trivial, o prosaico. Como bem identificamos nas construções que seguem:

Risco

Um poema livre
da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não


Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Mais um exemplo condiciona-nos a outra relevante característica – a liberdade formal, representada pelo emprego do verso livre, pelas formas de composição totalmente irregulares, muitas vezes destituídas de pontuação. Conjuntamente a esta concepção, identificamos também uma “marca registrada” de Oswald de Andrade – o instinto crítico e irreverente. No caso em questão, explicitamente identificamos a crítica feita à Carta de Pero Vaz de Caminha, quando este se deparou com os nativos que aqui se faziam presentes. As índias, segundo a concepção do autor, eram “saradinhas”, bem ao gosto popular. E eles, ao contrário do que ocorreu no documento original, “não tinham nenhuma vergonha” – representado uma linguagem bem despojada.

(...) Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que cobrisse suas vergonhas. [...]

Trecho da Carta de Caminha

As meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
Oswald de Andrade

Todas essas inovações não param por aí, haja vista a importância de salientarmos para o fato de que Oswald foi um mestre na arte de parodiar, isto é, realizar uma intertextualidade tendo como referência uma outra criação, embora visando à crítica. É o que podemos conferir em:

Canto de regresso à pátria

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Oswald de Andrade
(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.)

Percebemos que o autor, envolto pelo instinto crítico, se atém ao sentimento ufanista extremamente cultuado pelos artistas do Romantismo, em especial por Gonçalves Dias, em A canção do exílio. Mediante tal constatação, surge-nos uma dúvida: o porquê da crítica, se o Modernismo também foi um movimento voltado para as raízes, para uma construção de uma identidade verdadeiramente nacional. Resta-nos inferir que ambas as concepções, mesmo sendo semelhantes, se divergiram em um aspecto: o nacionalismo moderno não possui o estandarte do nacionalismo romântico - ufanista por excelência.

Arraigados por um conhecimento mais amplo acerca das características de sua temática, vamos então conhecer um pouco mais sobre a trajetória artística de Oswald de Andrade.
Nasceu no ano de 1890 e morreu em 1954, na cidade de São Paulo. Provindo de uma família ilustre, cursou a faculdade de Direito do Largo São Francisco, formando-se em 1912. Fez sua primeira viagem à Europa em 1912 e, quando lá retornou, em 1924, lançou o livro de poemas, introdutor do Movimento Pau-Brasil. Em 1931 filiou-se ao Partido Comunista, conservando tal ideologia até o final de sua vida.

Dentre as suas criações de cunho inovador, destacam-se: Pau-Brasil (1925); Cântico dos cânticos para flauta e violão (1945); O escaravelho de ouro (1945); Os condenados (1922); A escada vermelha (1934); Memórias sentimentais de João Miramar (1924); Serafim Ponte Grande (1933); e no teatro – O homem e o cavalo (1934), A morta (1934) e O rei da vela (1937).

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